Zétesis

Analogia entis aristotélico-vedântica

Existe um aspecto muito interessante na relação entre Brahma, Vishnu e Shiva, na cosmologia hindu, que guarda uma harmonia profunda com aquilo que Aristóteles afirma no De Anima, quando ele define o que é um ser vivo — esse composto de alma e corpo.

Aristóteles diz que todo ser vivo possui, essencialmente, três propriedades fundamentais: nutrir-se por si mesmo, crescer, e fenecer — ou seja, morrer, definhar, se decompor. Se observarmos com atenção, o ser vivo é aquele que possui, em si mesmo, um princípio interno que regula essas três operações. Ele carrega o princípio do movimento e da transformação dentro de si.

Curiosamente, essas três propriedades que caracterizam o ser vivo correspondem, de modo simbólico e estrutural, aos três princípios cósmicos representados por Brahma, Vishnu e Shiva na cosmologia hindu. Brahma representa o princípio da criação, que é análogo ao crescimento, pois crescimento é o acréscimo de novo ser, é a atualização de potencialidades na forma. Vishnu representa o princípio da preservação, que é análogo à nutrição, pois nutrir-se é manter-se no ser, conservar a forma viva. Shiva representa o princípio da destruição ou dissolução, que é análogo ao fenecimento, o envelhecimento, o desgaste e, por fim, a morte, que é a cessação da forma.

Observe que todo ser vivo realiza essas três operações por si mesmo. Ele busca seu próprio alimento — não é necessário que alguém coloque diretamente na sua boca. Ele cresce por si mesmo — não precisamos “acrescentar matéria” externamente, como fazemos ao construir uma casa, que exige que alguém vá lá e sobreponha pedras, peças e materiais. E, da mesma forma, ele carrega em si o princípio de sua própria destruição: mesmo que eu não o mate, mesmo que ninguém interfira, chegará naturalmente o momento em que ele morrerá por si só, quando sua própria forma se dissolver.

Portanto, o próprio ser vivo carrega dentro de si, imanentes, os princípios de geração, conservação e destruição — os mesmos três princípios gerais que regem todo o ciclo do ser contingente.

Agora, veja que coisa profundamente interessante: quando olhamos para um ser vivo isoladamente, percebemos que ele tem isso em si mesmo. Mas isso não se limita aos seres vivos; é também uma analogia válida para todos os seres contingentes. Mesmo aqueles que parecem, à primeira vista, não possuir vida no sentido biológico — como pedras, rios, montanhas ou planetas — também estão submetidos aos mesmos princípios: eles vêm a ser, se mantêm no ser por um tempo e, por fim, deixam de ser.

Quando ampliamos a visão para contemplar a totalidade do cosmos, percebemos que ele também é regido por esses três princípios: criação, preservação e dissolução. É como se todo o cosmos fosse o corpo de uma única vida, e essa vida fosse, precisamente, a vida do próprio Ser Eterno — aquilo que no hinduísmo se chama Brahman.

Assim, o Ser Eterno é como que uma Alma, no sentido de que ele é princípio, isto é, enteléquia primeira do corpo que se manifesta no tempo, na matéria e na contingência, sustentando todo o ciclo do ser.

É profundamente interessante perceber que, mesmo no aspecto puramente cosmológico, quando comparamos a estrutura do ser vivo com a estrutura do ser continente, encontramos uma correspondência perfeita entre o que Aristóteles percebe como as operações fundamentais da vida e aquilo que o hinduísmo expressa, simbolicamente, na trindade cósmica de Brahma, Vishnu e Shiva.