Sobre a estrutura da inteligibilidade e o mundo das ideias
No meu texto sobre o ser e o conhecer, propus uma meditação sobre a estrutura da inteligência, da inteligibilidade e da intelecção, com foco especial no intelecto ativo segundo a teoria de Aristóteles. Dei razão a ele, sobretudo no que se refere ao caráter eterno do intelecto ativo, considerando-o necessário à própria estrutura da inteligibilidade do ser. Porém, o exame dessa ideia nos abre um horizonte de realidades eternas e nos conduz a novas investigações. Entre elas, além do próprio intelecto ativo pessoal, encontramos outras estruturas que se apresentam como necessárias e que reaparecem ao longo da tradição filosófica, à medida que os pensadores aprofundam a doutrina aristotélica.
Uma dessas estruturas é a eternidade da essência — inclusive a essência dos entes contingentes — como algo que subsiste por si mesmo. Outra é o ato de apresentação do inteligível ao intelecto, o que pressupõe um outro ato eterno que denomino aqui, por analogia, de eterno pedagogo, cuja função na estrutura da inteligibilidade se assemelha ao que já foi chamado de intelecto ativo universal (por Avicena e Averróis), de mestre interior (por Santo Agostinho), ou ainda de logos nas tradições neoplatônicas e cristãs. Essa estrutura da inteligência, portanto, constitui uma ponte entre a metafísica e a mística. Mas neste texto, desejo concentrar-me especialmente num desses aspectos: o problema da essência do ente contingente.
Tudo começa com a perplexidade diante do que muda e do que permanece. A percepção da mudança no mundo e, simultaneamente, daquilo que nela subsiste é uma das experiências mais fundamentais da filosofia. Essa tensão foi tematizada de forma emblemática na filosofia grega, especialmente na oposição entre Parmênides, que afirmava a imutabilidade do ser, e Heráclito, que via na mudança a única realidade. Dessa tensão nasceu uma das mais ricas tradições metafísicas da história, empenhada em conciliar permanência e mutabilidade.
O ser contingente está sempre sujeito à mudança. Contudo, mesmo mudando, conserva algo de sua identidade. Ele se transforma sob certo aspecto, mas continua o mesmo sob outro. Tomemos o exemplo de uma planta. Uma semente, ao ser plantada, germina, torna-se uma árvore, floresce, frutifica e morre. Em todos esses estágios, permanece sendo a mesma planta. Seus estados se alteram — tamanho, figura, função — mas há algo nela que subsiste. A planta de hoje é a mesma que brotou da semente. Assim, podemos distinguir claramente entre o que a coisa é (sua essência) e a sucessão de estados que assume ao longo do tempo.
Essa distinção dá origem a uma metafísica do ser contingente, na qual podemos reconhecer três dimensões fundamentais do devir:
- Aquilo que pode vir a ser, mas ainda não é — a potência;
- Aquilo que existe, mas poderia não existir — o ser contingente;
- Aquilo que permanece em meio ao que muda — a essência.
Todos nós recorremos a essas noções no dia a dia, embora nem sempre nos damos conta da profundidade e do alcance dessas ideias. Às vezes falamos de planos para o futuro como, por exemplo, construir uma casa nova. Ela ainda não existe, mas sabemos que pode vir a existir se alguém construí-la. Também posso referir-me a mim mesmo com base na minha essência — aquilo que subsiste — ou a partir dos meus estados passageiros quando, por exemplo, falo que estou triste ou alegre. Essas distinções permitem reconhecer como a dinâmica da minha própria vida se desenrola diante de uma dimensão estável que não se confunde com as variações do cotidiano nem com as possibilidades do futuro. Mesmo que meus estados mudem, não me confundo com eles. Há algo que é mais permanente, que me acompanha desde o nascimento até agora, e que, num sentido ainda mais radical, é até mesmo anterior ao meu nascimento, e que não pode nem mesmo deixar de existir na minha morte — é exatamente isso que reconheço que eu sou.
Nossa própria experiência atesta, portanto, uma intuição constante de que algo permanece em meio às mudanças. Essa dualidade — entre essência e estados — gerou diversas tradições filosóficas, algumas dando mais ênfase à mutação, outras à permanência. Ambas, no entanto, existem. A sabedoria está em reconhecê-las, compreendê-las e articulá-las. Toda a tradição metafísica é, em última instância, uma tentativa de compreender a natureza da realidade sem negar nenhuma de seus aspectos. Negar um em detrimento de outro é mutilar a experiência do real.
Chegamos assim a uma questão mais profunda: a eternidade da essência. Esse problema torna-se ainda mais complexo quando se introduzem as noções de potência e contingência. Ao refletirmos sobre a estrutura da inteligibilidade, deparamo-nos com um aparente paradoxo: como algo que não existe — ou seja, que está apenas em potência — pode ser inteligível, ou mesmo ter uma essência?
Podemos intuir isso por meio de nossa atividade criativa. Por exemplo, quando concebemos uma obra de arte ou invenção tecnológica, nós sempre pensamos na ideia primeiro antes de produzir a obra de fato. Assim, nossa atividade criativa é um primeiro indício de como lidamos com essências antes mesmo da existência dos seres contingentes que as encarnam. No entanto, há uma razão ainda mais profunda do que essa experiência psicológica.
Toda potência só é potência de algo determinado e distinto das outras coisas. Não há potência para o absolutamente indeterminado — pois do contrário, não haveria como falar de uma potência real, mas apenas de uma indeterminação absurda, incoerente e ininteligível. Existe, portanto, uma determinação pré-existente. Mesmo quando se diz que algo está “em potência”, isso só faz sentido porque se refere a uma essência distinta das demais. Logo, é preciso admitir que essa essência — mesmo do ser em potência — de algum modo já existe, isto é, subsiste em ato enquanto essência inteligível, ainda que não exista o ser contingente em ato.
Esse é o ponto de contato com Platão e sua doutrina das ideias eternas. A essência de um ser contingente não é sua existência, mas é o que o torna inteligível e distinguível de outros. E se pode ser inteligível, já é de algum modo real — real não como um corpo, mas como uma determinação eterna. Sem isso, a inteligibilidade do mundo seria impossível.
Portanto, a distinção entre os entes, inclusive os que ainda não existem, exige um fundamento inteligível anterior à sua atualização. Essa essência, portanto, não é criada pela linguagem nem construída mentalmente. Ela subsiste e é a razão pela qual o ser em potência é inteligível mesmo antes de existir. É o que nos permite distinguir que tal coisa pode ser um carvalho, e não uma pedra; pode ser um cachorro, e não um som.
Assim, além do intelecto ativo pessoal (que atualiza a intelecção ao receber as formas inteligíveis), é necessário que as essências estejam já em ato enquanto essências, subsistindo eternamente, para que possam ser conhecidas. A faculdade que apreende essas essências é justamente o intelecto ativo. Ele as reconhece como realidades subsistentes.
Essa concepção, por mais paradoxal que pareça, corresponde a uma profunda intuição da razão metafísica: a de que toda inteligibilidade supõe uma estrutura de permanência, mesmo naquilo que ainda não existe. É essa estrutura que garante que o ser, mesmo contingente, nunca seja absurdo, mas sempre inteligível.
A essência não depende do ser contingente para subsistir. Ao contrário, é o ser contingente que, ao se realizar em ato, o faz na medida em que é unido à sua essência. A essência, por si, é necessária. O ser contingente é que precisa dessa união para ser aquilo que é.
Essa é, enfim, a articulação entre inteligibilidade, essência e ser. É essa articulação que torna possível a meditação filosófica, o conhecimento metafísico e, talvez, o vislumbre de uma realidade mais alta — aquela em que todas as essências são contempladas na luz do eterno pedagogo.