Zétesis

Sobre o ser e o conhecer

Encontro-me em meditação sobre a inteligência, a inteligibilidade e o ato de conhecer. Mais precisamente, sobre as razões que levaram Aristóteles a afirmar que o intelecto ativo é, por sua própria natureza, um ato necessário: eterno, incriado e incorruptível. Trata-se de uma das teses mais ousadas e profundas acerca da essência da alma humana — um ponto em que a metafísica aristotélica toca o limiar do divino.

No fundo, tudo parte daquela perplexidade original acerca daquilo que se move e daquilo que é imóvel — isto é, entre o que muda e o que permanece. Sem essa tensão, sequer poderíamos dizer que “algo mudou”. Pois, para dizer que algo mudou, é necessário reconhecer que alguma coisa permaneceu, de modo que possamos identificar que foi essa mesma coisa que agora se alterou. Se dizemos, por exemplo, que o cachorro envelheceu, afirmamos ao mesmo tempo que ele mudou e que ele permaneceu o mesmo — o mesmo cachorro. Ou seja, há, no nosso ato de conhecer, uma tensão permanente entre o mutável e o imutável, entre o ser e o devir.

Essa contradição se manifesta quando o ser se apresenta às minhas diversas faculdades perceptivas. Meus sentidos me informam sobre mudanças. No entanto, sou capaz de reconhecer algo que permaneceu através da memória. Por meio da impressão sensível fixada na memória, sou capaz de comparar estados distintos de uma mesma coisa. Reconheço, por exemplo, o rosto de um amigo depois de anos.

Portanto, a memória me dá uma primeira experiência de continuidade, mas ela é insuficiente para explicá-la. O que permanece mais profundamente não é dado nem pelos sentidos nem pela memória. Há uma intuição mais radical, que me revela que tudo o que existe, é algo que permanece, ainda que seja contingente. Porque, se não permanecesse, sequer poderia afirmar que existiu ou mudou. Isso significa que o ser, para ser, deve permanecer de algum modo. Isso é um dado ontológico.

Porém, como eu sei disso? Isso me leva a uma dimensão de conhecimento que não é sensível, nem imaginativa, nem mnemônica. É a própria intelecção. Sei, por um ato de inteligência, que todo ser é, em certo sentido, permanente, e que a mudança é acidental a ele. Este conhecimento não vem dos sentidos nem da memória. É um conhecimento de algo necessário, universal. É nele que reside a certeza sobre a continuidade do ser, da qual as imagens sensíveis e mentais são apenas sombras transitórias. Pois elas passam, enquanto o ser subsiste.

Nesse contexto, compreendo que a inteligibilidade é uma relação entre o ser e a minha inteligência — entre aquilo que subsiste e aquele que conhece o que subsiste. Inteligibilidade significa apenas que eu posso conhecer isso que permanece, o ser subsistente em meio às mudanças acidentais. Não quer dizer que eu o conheço em ato, apenas que eu posso conhecê-lo. No entanto, ela não é uma possibilidade meramente eventual ou arbitrária: é uma possibilidade necessária, porque a inteligibilidade é inerente ao ser.

Se a inteligibilidade não fosse inerente ao ser, então seria possível algo existir enquanto forma subsistente sem que eu possa saber que ele subsiste. Por outro lado, eu sei que existir é subsistir, ainda que contingentemente. Mesmo que eu, de fato, não conheça este ente, sei que se ele subsiste, é cognoscível. O conhecimento em ato de um ente específico pode faltar, mas sua cognoscibilidade essencial não. Logo, a inteligibilidade é essencial do ser, seja ele contingente, seja ele necessário, seja mera potência, pois até o ser em potência tem uma essência imutável, mesmo que a potência nunca venha existir em ato.

Se admitirmos essa conclusão, então nos veremos diante de um grande mistério. Essa inteligibilidade não é algo abstrato, genérico, “para alguém em geral” — ela é para mim, enquanto ser dotado de inteligência. Ou seja, a inteligibilidade do ser é potência de conhecimento pessoal: a estrutura do ser é tal que ele pode ser conhecido por mim, por um ser racional.

Conforme admitimos, a inteligibilidade do ser é necessária, portanto, eterna. Mas — e esse é o ponto decisivo — essa potência de conhecimento só pode ser real se estiver sustentada em um ato. Uma potência que não se refere a um ato possível é uma contradição. Uma possibilidade de conhecer que não possa jamais ser realizada não é uma verdadeira possibilidade. Logo, deve existir um ato, igualmente eterno, que fundamente a inteligibilidade do ser para mim. Esse ato é o que Aristóteles chama de intelecto ativo.

O intelecto ativo, portanto, é necessário. Ele não é uma escolha, um acaso ou um produto da experiência. Ele é um princípio essencial da alma racional — um ato eterno que possibilita que o ser, enquanto inteligível, seja conhecido por mim. Ele é o fundamento de toda possibilidade de intelecção. Só por causa dele é que existe, em mim, uma potência de conhecer tudo aquilo que é. Mesmo que, de fato, eu não conheça tudo — mesmo que minha intelecção atual seja limitada e contingente — a potência de conhecer é necessária, porque subsiste um ato necessário em mim que torna o ser inteligível para mim em toda a sua extensão.

Essa estrutura — da forma que permanece, do ser que subsiste, da inteligibilidade essencial ao ser, e do intelecto ativo que atualiza essa inteligibilidade — aponta para uma realidade profunda: há, na minha alma, algo de natureza eterna. Algo que não é acidental, mas essencial. Algo que está presente não por casualidade, mas por necessidade ontológica. É precisamente isso que faz de mim um ser humano: minha inteligência. E minha inteligência existe numa relação necessária com tudo o que é, por meio da inteligibilidade universal do ser e da eternidade do intelecto ativo.

Essa estrutura que acabamos de reconhecer — a inteligibilidade como inerente ao ser e o intelecto ativo como o ato necessário que a atualiza em conhecimento — revela também uma diferença fundamental entre essa faculdade e as outras potências humanas, especialmente as faculdades sensitivas. Pode-se perguntar: não seria o mesmo com o visível, por exemplo? Afinal, o visível também é sempre potencialmente visível para mim, e parece que sua visibilidade depende da minha faculdade da visão. Mas aqui está o ponto essencial: a visibilidade de uma coisa não é uma propriedade necessária dela, mas um acidente, algo que depende de condições externas e materiais. Um ser só é visível enquanto está presente como corpo físico, iluminado, diante de olhos saudáveis — ou seja, sua visibilidade depende da sua existência como substância material e das condições do ambiente.

Ao contrário disso, a inteligibilidade não depende dessas condições. Ela não exige que o ser esteja presente de modo sensível nem que exista atualmente como corpo. Basta que ele tenha uma essência para que seja inteligível. Isso vale até mesmo para formas que nunca se atualizam sensivelmente: o triângulo, a justiça, o número, a alma. Todas essas realidades são inteligíveis por sua própria essência. Por isso, a inteligibilidade está para além da percepção sensível ou da memória, porque ela pertence à estrutura própria do ser, e não ao modo como ele se apresenta aos sentidos. A visibilidade precisa de luz, de olhos, de presença. A inteligibilidade, ao contrário, pertence à forma pela sua própria natureza, como uma relação necessária entre aquilo que subsiste e a inteligência. Assim, compreendo que a inteligibilidade é uma potência essencial do ser, e que só pode haver potência verdadeira se houver um ato correspondente que a torne possível de modo necessário e eterno — esse ato é o intelecto ativo presente em mim.

Diante dessa conclusão fascinante, é inevitável que me pergunte: então, o que é isso que eu sou? Em geral, quando uso a palavra “eu”, refiro-me não àquilo que mudou, que deixou de ser, mas àquilo que permanece — ao que há de mais essencial em mim. Eu não sou a soma das minhas lembranças, nem as formas transitórias do meu corpo ou da minha sensibilidade. Ao contrário, eu me refiro intuitivamente àquilo que, mesmo em meio a todas as mudanças, se mantém como fonte da unidade pessoal. E poderá existir algo mais essencial em mim do que esse ato eterno da minha própria inteligência? Esse princípio pelo qual compreendo o que é, que atualiza para mim a estrutura permanente e inteligível de todo ser? Esse ato puro, esse foco silencioso da alma, parece ser o que verdadeiramente me constitui enquanto ser humano — não no sentido biológico, mas no sentido metafísico mais elevado. É ele que me distingue de todos os demais entes sensíveis, que me eleva à participação na ordem do inteligível e me torna capaz de contemplar o que é eterno. Se há algo que merece o nome de “eu” em sua acepção mais profunda, é precisamente esse centro luminoso pelo qual posso conhecer o que é, e que, ao fazê-lo, manifesta ser de uma natureza mais alta, imaterial e não contingente. Assim, conhecer-me é inseparável de reconhecer essa centelha eterna em mim — esse ato de inteligência pelo qual participo da luz que ilumina todo o ser.

No fim, a resposta talvez seja simples. Quem conhece, afinal? Meu intelecto ativo ou eu? Sou eu quem conheço, pois a forma é inteligível para mim. Abstraindo tudo o que é acidental — inclusive meu conhecimento contingente —, e sabendo que eu sou aquilo que permanece, o mais permanente entre os permanentes, que não sou aquilo que é potencialmente parte nem o que é potencialmente unido, então sou isto: um deus. É uma afirmação forte, mas é precisamente o que Cristo declarou ao citar os Salmos: "Vós sois deuses."